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Inspirações para uma vida saudável.
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Inspirações para uma vida saudável.

Girl with flower

Fique tranquilo, esse texto não faz apologia a nenhuma forma de masoquismo. Não gosto de me ater à ideia de que é necessário sofrer para que se alcance algum estado de iluminação, tampouco gosto da crença viciada de que quanto mais se sofre, mais longe se vai. Os ensinamentos budistas indicam que o sofrimento é inerente à existência humana, e, portanto, não precisamos buscar a dor, pois ela virá inevitavelmente para todos, em algum estágio da vida.

Faz parte da natureza humana ter que enfrentar dilemas como a morte – a nossa própria e a de pessoas queridas – assim como o envelhecimento, as doenças e acontecimentos que não correspondem às nossas expectativas. De acordo com a monja e escritora Pema Chodron, o verdadeiro sofrimento não é causado por esses fatos ou situações em si, e sim pela forma com que tentamos evitá-los a todo custo.

Como ela explica no seu livro “Practicing Peace”, estamos condicionados ao pensamento de que devemos nos sentir bem a todo momento, e portanto, buscamos insistentemente a felicidade e segurança. De alguma forma, parecemos acreditar que a felicidade só é possível se fizermos alguma coisa certa, ou na hora em que estivermos na situação favorável que idealizamos. E, ao nos concentrarmos na busca, sempre procurando a oportunidade em que iremos nos sentir muito bem, esquecemos de estar presentes nesse exato momento. Não nos permitimos sentir com totalidade, e as vezes nem parcialmente, nem o que acontece à nossa volta nem o nosso próprio corpo nos proporciona. Que cheiro estou sentindo? Qual a sensação na minha língua? Como percebo minha respiração?

Foto por site christianetiel.com.br

Ao focar a atenção no que está acontecendo no momento presente, nos permitimos, mesmo que por um pequeno instante, cessar a ânsia pelo que está por vir. Ou o arrependimento pelo que fizemos ou não fizemos. E é na aplicação prática de se concentrar no agora que a meditação mindfulness, ou qualquer outra técnica de meditação, pode nos ajudar.

Falo aqui sobre a meditação mindfulness pois foi a maneira que eu, particularmente, me reaproximei do universo de permanecer quieta, de olhos fechados, saboreando o prazer da minha própria companhia. Simples assim. Digo que me reaproximei pois já tinha tido a sorte de ter contato com outras formas de meditação. Mas foi quando mais precisei, quando me vi tomada por uma crise de ansiedade e percebi que estava perdendo o controle da minha própria estabilidade, é que passei a usar o mindfulness de uma forma sistemática. Desde então, pude perceber não só a atenuação dos sintomas e das crises, como também uma mudança sutil na forma de encarar as adversidades. Essa transformação não significa que virei uma pessoa totalmente estável ou cheia de aceitação. Ao contrário, passei a compreender com mais clareza que muitas vezes o confronto é útil e necessário, principalmente quando existe oposição de ideias. Acredito que é assim que conseguimos evoluir, coletivamente, desde que haja respeito entre as partes que discutem.

A verdade é que a meditação me ajudou a olhar para dentro. E, para alguém que antes precisava carregar um saco de papel consigo caso faltasse o ar, obviamente a prática me trouxe alívio. E, por isso, de repente me vi buscando constantemente essa sensação boa. E é exatamente nessa hora que me perdi um pouco na prática, voltando àquela situação que descrevi no início, de ansiar pelos sentimentos agradáveis.

Be mindful

Recentemente, fui ao II Encontro Internacional de Mindfulness na UNIFESP, e assisti a uma palestra do Gary Henessey, britânico fundador da instituição que ensina práticas de mindfulness, The Breathworks. Durante seu discurso, ele abordou de uma forma ilustrativa a forma como lidamos com nossos desconfortos. Leu um poema em que o autor travava um diálogo com um sentimento pesaroso (mas que poderia ser qualquer outro sentimento incômodo, como raiva, luto, inveja, ciúmes). No texto, o pesar adquiriu a forma de um cachorro. E o autor conversava com ele, dizendo que não deveria tratá-lo como um cachorro de rua, que pede comida pela porta dos fundos, e era ignorado, ou alimentado rapidamente para que ele fosse embora logo. Ao contrário, o cachorro era bem vindo a entrar na casa. E ele, o cão, deveria entrar pela porta da frente, saber que tinha seu próprio espaço, e que o dono da casa era a sua pessoa, o seu dono e seu amigo.

Na minha compreensão, o que ele quis dizer é que, a partir do momento em que aceitamos a dor com o coração aberto e nos permitimos realmente conviver com ela, é aí que abrimos as portas para um processo de cura, de aprender com a experiência. E também é nessa hora, em que mergulhamos no cerne da dor, sem tentar compreendê-la e sem julgá-la, apenas sentindo-a, permitimos que ela se dissolva e nos leve a um estado mais pleno.

Certamente não se trata de uma tarefa fácil. Entrar em contato com todos os nossos sentimentos, sem exceção, exige coragem, disposição e comprometimento consigo mesmo. E eu diria que é um desafio que permanece durante a vida toda, já que, tirando o inevitável momento em que nosso corpo físico se desfaz, todo o resto dos acontecimentos é imprevisível e muitas vezes nos pega de surpresa. Mesmo assim, acredito que encarar nossos incômodos de peito aberto talvez seja a melhor alternativa para não sermos dominados por eles, ou pelo menos para vivermos com alguma harmonia, apesar deles. Por isso, seja bem-vinda, querida dor, a casa é sua.

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Rita Oliva - Ver mais posts deste autor

Sou formada em Comunicação Social pela ESPM, e foi na redação e na música que encontrei o que chamo de trabalho e paixão ao mesmo tempo. Sou adepta da meditação, e descobri na prática uma forma de deixar minha mente mais centrada e meu coração mais aberto. Acredito plenamente que o desenvolvimento individual, focado em cada ser humano, é capaz de transformar o mundo de forma eficaz e significativa. Sei que esse é um desafio para a vida toda, e agora é sempre uma boa hora para começar.

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